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Abr 04

Zoltán Biedermann encontra-se no Irão. Eis o relato que faz da sua viagem.


Desde que cheguei a Teerão, há oito dias atrás, que ando a calcorrear este país estranho sem conseguir encontrar nem tempo, nem lugar para vos escrever. É de Bandar Abbas, porto quente e húmido à beira do Golfo, que agora me reconecto ao mundo virtual. Mas para ser correcto, devo voltar atrás aos planaltos do Irão e começar tudo desde o princípio. E custa. Teerão é um monstro urbano aparentemente semelhante a tantos outros do Terceiro Mundo. Espraia-se por um planalto poeirento e ventoso, tem 10 milhões de pessoas e três milhões de carros muito mal cheirosos, e quando se anda de um lado para o outro nunca se demora menos de uma hora, sempre a percorrer vias rápidas infindáveis, seguindo em filas enervantes e, muitas vezes, sanguinárias. A residência universitária que nos acolheu fica no meio de um bairro, muito central, que lembra os subúrbios industriais pré-segunda-guerra de Budapeste, e embora brilhe por um certo luxo na arquitectura exterior, a limpeza deixa imenso a desejar. Finalmente, ao tentarmos fazer um pouco de zapping antes de adormecer, nada encontrámos que não fossem mullahs a garantir ao seu povo que a felicidade aqui cresce nas árvores (que árvores?), mullahs a maldizer "o inimigo" Israel, e ainda mullahs a salmodiar de modo quase tão enervante e sanguinário como as filas automóveis o Sagrado Alcorão. Tudo parecia encaixar tão bem, até que, no dia seguinte à chegada, as coisas se começaram a complicar. Primeira surpresa, uma estranha sensação de familiaridade que me vinha pelo lado centro-europeu: os iranianos e as iranianas, tão contrariamente ao nobre povo de Portugal, adoram andar a pé. Nos feriados, a primeira coisa que fazem, além de se meterem no carro para saírem dos infernos urbanos que são todas as suas cidades, e irem até à montanha e começarem a caminhar. A festa nacional do Ano Novo, o famoso Nourouz, é antes de mais nada uma festa de caminhadas pela natureza. Vai-se à montanha para cheirar a natureza, ver com os olhos o que a poesia exalta há mil anos com incomparável artifício. E o feriado em que comecei a tomar o pulso a Teerão, o dia 20 de Abril, aniversário da morte do Imam Reza, não foi diferente. Do lado Norte, a capital do Irão sai do planalto e trepa pelos sopés de uma serra imensa. Os cumes, ainda brancos, que se elevam a mais de 4000 metros de altitude, brilham por cima dos bairros ricos como um belíssimo chamariz. E lá vão eles, os e as teeranenses, munidos de botas de montanha ou não, andando por encostas íngremes, gozando as vistas, namoriscando sem se preocuparem com as récitas corânicas que alguns altifalantes teimam, ainda ali, em difundir. A segunda surpresa já está introduzida: longe de se deixarem oprimir em toda a sua vida pessoal, os jovens de Teerão (e de jovens é feito este país, onde mais de 60 por cento da população tem menos de 35 anos) são uns atrevidos de primeira. Aliás, mais correctamente, as jovens é que são. Passamos por elas, temendo as piores reprimendas policiais se dermos o menor dos sinais de interesse (porque é isso que vem descrito no Lonely Planet), e elas põem-se a chuchotar, a rir e a comentar cada um de nós com o maior descaramento possível. Põem-se, para maior embaraço ainda, a questionar-nos sobre isto e aquilo, quando é óbvio que só nos querem observar de perto o maior tempo possível (até que algum polícia ou guardião da revolução, enervado com a situação, lance um olhar temível e a coisa se acalma). Elas que, claro está, por baixo das vestes ridículas que a lei prescreve vestem tudo e todas as cores que as nossas miúdas também vestem (e note-se que não estou a falar da lingerie parisiense que, segundo certos rumores, hoje já se pode descobrir). Terceira surpresa, os jovens iranianos (termo redundante, como já disse), são expostos a lavagem cerebral diária pela televisão e pela imprensa, mas não deixam de nutrir-se da melhor literatura, a qual vão buscar a uma filada incrível de livrarias situadas em proximidade à universidade. Ali em Enqelab Avenue, cada loja vende livros, e há mesmo um centro comercial inteiro só com livrarias. O que melhor vende não são as parvoeiras dos mullahs (essas lojas estão quase todas vazias) mas sim as traduções de literatura ocidental, os livros de informática e os métodos de aprender inglês, alemão e francês. Quem nos dera esta fome de saber, este entusiasmo e esta abertura de espírito. Quem nos dera entrarmos só uma vez em cada mês numa livraria e tirarmos da estante, para o folhear ou comprar, um volume de poesia persa. Quarta surpresa, e com esta termino por hoje, este regime está podre, corrupto e para além de todos os critérios do bem e do mal (vamos lá ver se me censuram esta), mas tem uma coisa essencial que o distingue dos idos regimes de Leste, ainda chorados por alguns idealistas entre nós: este regime, ao contrário dos comunismos e socialismos reais, está podre de rico. Tem dinheiro à farta e sabe muito bem onde o deve investir. Investe-o na aparente felicidade das suas gentes, na educação da sua juventude, na manutenção de milhares de rotundas verdejantes e espampanantes que se espraiam pelos planaltos a par e passo. Investe-o, já se entendeu, na nutrição de uma enorme ilusão, e hoje encontrei a prova de que, em certos casos, o ilusionismo funcionou: acabo de discutir durante mais de uma hora as vantagens e desvantagens das democracias de cá e de lá, e não consegui demover o meu interlocutor, um simpático estudante de engenharia, filho de professores esclarecidos e bem pagos, da sua posição inicial: o Irão é uma democracia, e se bem que ela seja um pouco sui generis, na generalidade tudo está OK. Aliás, tudo o que há de mau por cá também há em versão bem pior lá. Para que não pensem que tudo é deprimente, prometo contar histórias mais alegres nos mails que seguirão. Prometo, claro está, sob a condição de encontrar um computador a funcionar e de não me derreter, amanhã, durante uma viagem de onze horas que me vai levar de volta aos planaltos desérticos ao Sul de Teerão. Contarei as histórias de Isfaao e de outros lugares mágicos, e a pureza do perfume das flores sob o céu estrelado da Pérsia.


Zoltán Biedermann

publicado por Francisco Caramelo às 00:21

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