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Abr 04

Melro.jpg Poisara no muro, o melro-de-peito-branco, observador, curioso, inquieto com aquelas estranhas criaturas que esgravatavam a terra seca e poeirenta. Havia dias que o faziam sem que ele entendesse o propósito de todo aquele afã. Não fazia qualquer sentido. É certo que era um melro recém-chegado, atraído pelas margens do grande rio e ignorante das peculiaridades locais. De vez em quando, afastava-se um pouco para explorar o território e foi numa dessas aventuras controladas que o melro-de-peito-branco deu com o inusitado ajuntamento. Sim, porque o seu espírito aventureiro tinha limites e não era dado a grandes afoitezas.


Nessa manhã, voara sobre as areias doiradas e cálidas do deserto e, contemplando em redor, avistou os palmeirais lá longe. Lançou-se e deixou-se levar por uma suave brisa que o embalou, numa viagem mais demorada do que supusera, até ao muro onde descobriu o estranho bando. Era um pássaro que se interessava pela vida, pelos hábitos e pelos rituais de outrem. Em particular, fascinavam-no estas criaturas humanas. Desde que as descobrira, passara a observá-las com uma curiosidade incontida, dia após dia. Todas as madrugadas, arribavam a este lugar, sem qualquer interesse especial, longe do grande rio, com as palmeiras em fundo, o único verde que se avistava por perto. Atravessavam a aldeia, uma espécie de formigueiro, onde a azáfama era permanente e os cheiros nauseabundos. Começavam então a dispor-se sobre o terreno e a esgravatá-lo metodicamente. Assim parecia.


Ao terceiro dia, deram pela sua presença e a partir daí faziam sempre uma grande festa quando o avistavam, coisa que ele realmente não compreendia. No início, até se sentira incomodado e ia-se embora bruscamente quando começavam com manifestações mais expressivas. Era um melro discreto. Com o tempo, começou a dar-se conta de certos detalhes relativos a cada uma das criaturas. Uma delas, que lhe lembrava uma garça-real, era a única que não esgravatava. Sentava-se à distância, observando, e parecia ter uma estranha obsessão pela limpeza do terreno. Debicava aqui e acolá e logo se sentava de novo. Gostava de se pôr ao sol e, com preguiça, esticava ora a perna esquerda ora a direita. Tinha um especial cuidado com o aprumo das penas. Para além disso, dava-se ares de quem trabalhava muito e limitava-se a dar ordens que até a ele pareciam confusas. Parecia ser essa a sua única missão.


Naquele dia, porém, a garça-real estava particularmente activa, debicando afanosamente. Ao contrário dos outros dias, também esgravatava, e furiosamente, como se procurasse alguma coisa em especial. Arrastava pedra atrás de pedra. Isso preocupou o melro-de-peito-branco. Embora não simpatizasse com a garça-real, quis avisá-la da imprudência do que estava a fazer. Sob uma daquelas pedras poderia estar um escorpião. É certo que a sua mordedura não seria fatal mas causaria estragos. Ainda piou várias vezes: um escorpião… um escorpião… um escorpião… Nenhuma das criaturas o escutou. Arrastada a terceira pedra, descobriu-se um escorpião. Parecia o destino. O escorpião cumprira a sua missão. O melro-de-peito-branco disse para si próprio: “eu avisei… eu avisei!”. Mas a verdade é que, reflectindo melhor, agora que a conhecia bem, sabia que a garça-real acabaria por se ferrar a si própria mesmo sem a ajuda do escorpião.

Otto Ernst, Memórias
publicado por Francisco Caramelo às 19:53

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