Chegaram hoje ao fim os dois dias das jornadas sobre filosofia indiana na FCSH da UNL. Tive o privilégio de assistir a magníficas conferências de sumidades no âmbito dos estudos indianos. Destaco, sem desprimor para as restantes, duas em particular: 1) a de Roger-Pol Droit sobre «La philosophie des barbares: la représentation grecque des philosophes indiens»; e a de Charles Malamoud sobre «Y-a-t-il une philosophie du rituel?». Roger-Pol Droit mostrou-nos que a ideia de que só os gregos tinham uma filosofia terá sido uma concepção estranha ao próprio pensamento e à literatura grega. 2) Charles Malamoud produziu nos que o ouviram um encantamento profundo, com a sua erudição mas simultaneamente com a sua clarividência, reflectindo sobre a natureza e sobre a gramática do ritual nos textos. Está de parabéns o CHAM e a Ana Salema que se encarregou da coordenação científica.
Está desde ontem, dia 26, a decorrer na Fund. Gulbenkian uma feira de livro que vale a pena visitar. Os livros têm a qualidade que reconhecemos na Gulbenkian e os preços são realmente muito convidativos. Passem por lá e observem.
De vez em quando, desejo vogar para ocidente. Chamarei a este espaço ex adverso, pois procurará o contrário, o outro do outro…
A crónica do José Gil, Linhas de Fuga, publicada no Courrier Internacional de 15 de Abril, reflecte, a certa altura, sobre o carisma, sobre a forma como a televisão e a cultura mediática o transformaram. O carisma pressupõe silêncio e sombra; ex adverso, vivemos hoje o tempo da imagem, o tempo do horror ao vazio e ao silêncio. Como diz José Gil, «não há carisma sem silêncio» e, aparentemente, a imagem, na sua voracidade, substitui o silêncio e a sombra, sustentando, no entanto, verdades muito mais efémeras. Não será assim?
As Jornadas de Filosofia Indiana decorrerão na Universidade Nova de Lisboa, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, a 26 e 27 de Abril. Trata-se de uma organização do Centro de História de Além-Mar. Está prevista a participação de investigadores e académicos de renome internacional como Roger-Pol Droit (CNRS), Carlos Silva (UCP), Paola Rossi (Università di Padua), Michel Hulin (Paris IV), Victoria Lyssenko (Russian Academy of Sciences), Charles Malamoud (EPHE), F. Zimmermann (EHESS). A encerrar o segundo dia de trabalhos, haverá uma mesa redonda com a participação de Michel Hulin, Jorge Croce Rivera, Gilles Tarabout e Roger-Pol Droit.
Quase haiku
Que terror te ergueu
pétala a pétala
para eu desfolhar,
ó manhã de oiro.
Eugénio de Andrade, Ostinato Rigore Pequeno Formato

Jerusalem from the Mount of Olives, Sunrise (1859)
Edward Lear, 1812-1888.
"Qual é o sentido da vida? Ser feliz e ser útil."
Dalai Lama
Amanhã, terá lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa o colóquio sobre «A guerra na Antiguidade». As conferências decorrerão de manhã e de tarde, no Anfiteatro III, e terão início pelas 10.30. A organização é do Centro de História (U.L.) e do Instituto Oriental (FLUL).
Acabei de reler um pequeno conto, «Kali decapitada», em Marguerite Yourcenar, Contos Orientais. A salvação de Wang-Fô e outros. Que escrita envolvente, a de Marguerite Yourcenar. Fascina-me a forma como ela recria a lenda e o mito, elementos tão presentes no pensamento oriental. Depois, em cada história, intui-se a mensagem de Yourcenar, que nos é dirigida, a nós, leitores de hoje, convidando-nos implicitamente a descobrir uma moral e uma crítica à sociedade actual. Pergunto-me se o oriente não representa aqui uma evasão, um descentramento, uma forma de olhar o ocidente mergulhando na alteridade e na diferença, talvez não em si mesma mas como nós a imaginamos.
O conto cativa-nos. Kali era um «nenúfar da perfeição». Vítima da inveja dos outros deuses, foi degolada numa noite de eclipse e mais tarde ressuscitada. A cabeça da deusa foi colada ao corpo de uma prostituta. Kali apresentava agora uma dupla natureza e tinha consciência disso: «A minha cabeça tão pura foi soldada à infâmia - disse ela - quero e não quero, sofro e contudo exulto, tenho horror à vida e terror da morte.»
Kali vive esta existência paradoxal. Um dia, encontra um sábio na orla da floresta - o Sábio. Confessa-se-lhe. Este responde-lhe: «Todos nós somos incompletos - disse o Sábio. - Todos somos divisão, fragmentos, sombras, fantasmas sem consistência.»
Finalmente, conclui: «O desejo instruiu-te sobre a inanidade do desejo - disse ele; - e a pena que sentes ensina-te que não vale a pena ter pena».
"Embora saiba voar, o pássaro acaba sempre por ter de pousar na terra."
(Provérbio tibetano)
Para os interessados na cultura do Tibete e na sua forma específica de Budismo, transcrevo aqui o programa de um colóquio que terá lugar proximamente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Cultura Tibetana: Um Novo Paradigma?
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa 28 de Abril
Anfiteatro III Entrada Livre
Numa época de crise, questionamento e mutação de mentalidades, valores e paradigmas, numa era de diálogos inter-disciplinares e inter-religiosos à escala planetária, a cultura tibetana, na sua dupla vertente – as tradições Bön e Budista - , tem vindo a surgir como um dos privilegiados novos interlocutores da cultura ocidental, no domínio religioso, filosófico, científico e artístico. Por via do exílio, após a ocupação chinesa, de eminentes representantes da cultura e da espiritualidade tibetana no Ocidente, e muito particularmente da actividade a múltiplos níveis de Sua Santidade o Dalai Lama, a cultura e a língua tibetanas são hoje, a par do interesse suscitado no grande público, objecto de estudo em múltiplos domínios do saber. Para destacar apenas dois exemplos, recordem-se os encontros Mente e Vida, entre Sua Santidade e alguns dos mais eminentes cientistas europeus e norte-americanos, regularmente promovidos desde 1985 por iniciativa de Francisco Varela, estreitando o diálogo entre a ciência contemplativa budista tibetana e as ciências cognitivas ocidentais, bem como as recentíssimas experiências, cientificamente controladas, sobre os efeitos da meditação no funcionamento cerebral, levadas a efeito pelo Prof. Richard Davidson e sua equipa na universidade norte-americana de Wisconsin-Madison. Muitos destacados cientistas ocidentais são assim hoje estudiosos, quando não praticantes, da espiritualidade e filosofia veiculadas pela tradição tibetana. Por outro lado, tendo sido os portugueses pioneiros no contacto regular da cultura ocidental com a tibetana, acentua-se a estranheza do actual atraso dos estudos tibetanos (e orientais, em geral) no nosso país. Por todos estes motivos, desde a conferência proferida na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa por Sua Santidade o Dalai Lama, em 2001, o Departamento de Filosofia e a Faculdade de Letras, por via do projecto “A Filosofia e as Grandes Religiões do Mundo”, têm respondido ao seu apelo no sentido do estudo da cultura tibetana como melhor forma de promover a sua preservação. Vários colóquios e conferências foram desde então organizados, destacando-se, em 2003, a presença do cientista e monge Matthieu Ricard, que veio divulgar os resultados de algumas das mais recentes experiências atrás referidas, nas quais participou. É nesta sequência que surge o presente Colóquio, que integrará vários estudiosos e praticantes da tradição tibetana, bem como investigadores universitários – professores, doutorandos e mestrandos - , destacando-se a muito honrosa presença, para proferir a Conferência de Encerramento, de Jigmé Khyentsé Rinpoché, discípulo de alguns dos maiores mestres tibetanos dos séculos XX e XXI, como Kyabjé Kangyur Rinpoché (seu pai), Dudjom Rinpoché, Dilgo Khyentsé Rinpoché e Sua Santidade o Dalai Lama.
O Colóquio será acompanhado por uma Exposição de Fotografia, Imagens Tibetanas, a decorrer no átrio do Anfiteatro III, de 11 a 30 de Abril.
PROGRAMA
9. 30 – Sessão de Abertura – Prof. Dr. Carlos João Correia
10.00/10.25 - António Teixeira – “A descoberta do budismo tibetano pelos jesuítas portugueses no séc. XVII”
10.25/10.50 – Alexandra Correia - "A comunidade tibetana no exílio: visões e perspectivas"
10.50/11.15 - Rui Lopo – “A epopeia de Guésar de Ling: um problema histórico e sapiencial”
11.15/11.30 – Debate
11.30/11.45 – Pausa para café
11.45-12.10 – Antonio Cardiello – “Dialéctica da vacuidade na escola Gelugpa de Tshong-kha-pa”
12.10-12.35 – Jorge Rivera – “Há uma estruturação “oriental” do tempo ?” 12.35/12.50 – Carlos Silva – “Da invenção do tempo ou do tummo preliminar a pretexto do Yoga de Naropa”
12.50/13.05 – Debate
13.05/14.30 – Almoço
14.30/14.55 – Luís Carmo – “Símbolo, transformação e a mandala dos cinco Budas”
14.55/15.20 – Rute Gaspar – “Arte tibetana e transformação espiritual”
15.20/15.45 – José Cardal e Luísa Reis Paulo – “A simbólica do templo tibetano” 15.45/16.00 – Debate
16.00/16.15 – Pausa para café
16.15/16.40 – Paulo Borges – “Dbyings e Röl-pa: vacuidade e jogo primordial na tradição Bön e em Longchenpa”
16.40/17.05 – Tsering Päldron - "Morte e renascimento, o ciclo da vida no budismo tibetano"
17.05/17.20 – Debate
17.20/18.00 – Apresentação dos livros A Vida Desconhecida de Cristo, de Nicolai Notovitch, Cantos de Amor, do VI Dalai Lama, e O Budismo e a Natureza da Mente, de Matthieu Ricard, Carlos João Correia e Paulo Borges (Lisboa, Mundos Paralelos, 2005).
18.00/18.15 – Apresentação do Projecto Siddhartha, para apoio às crianças tibetanas.
18.15 – Conferência de Encerramento – Jigmé Khyentsé Rinpoché – “O treino da mente no budismo tibetano” Organização: Paulo Borges e Carlos João Correia, Projecto “A Filosofia e as Grandes Religiões do Mundo”, com o apoio do Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Outros apoios: União Budista Portuguesa, Songtsen – Casa da Cultura do Tibete, Shambhala – Centro de Estudos da Língua e da Cultura Tibetana, Editora Mundos Paralelos.
Programa de Estudos sobre a Civilização Indiana
Jornadas de Filosofia Indiana
-Entrada Livre- FCSH-UNL, Torre B, 7º andar, sala de reuniões
26 de Abril 10h às 13h
La philosophie des barbares: la représentation grecque des philosophes indiens Roger-Pol Droit - CNRS
O signo e os problemas da significação Carlos Silva - UCP
The Doctrine of karman and rebirth: origin and development in the Indian speculations Paola Rossi
15h às 18h
La controverse sur l'âtman : 25 siècles de malentendu entre bouddhistes et brahmanes Michel Hulin - Université de Paris IV
La «Vie du Bouddha»: récit historique ou mise en scène de la doctrine à travers un modèle idéal? Victoria Lyssenko – Russian Academy of Sciences
27 de Abril
10h às 13h
Y-a-t-il une philosophie du rituel? Charles Malamoud
Les philosophies de la nature et du vivant: l’écologie indienne ancienne Francis Zimmermann - EHESS
15h às 18h
Les perspectives ouvertes par une approche comparatiste en philosophie
Mesa redonda com a participação de Michel Hulin, Jorge Croce Rrivera, Gilles Tarabout e Roger-Pol Droit

É inaugurada hoje a exposição sobre arte persa no museu da Fundação Gulbenkian. Retrata os vários períodos e hegemonias da história do Irão. Tive ocasião de a visitar em Sevilha. Vale a pena.
CURSO LIVRE | A ARTE NA CHINA ANTIGA
Os povos que habitaram o actual território da China desenvolveram desde cedo uma civilização material tecnologicamente desenvolvida e requintada. Muitos dos seus objectos, quer os de uso quotidiano (utilitários, adornos, armas, instrumentos musicais) quer os destinados a funções religiosas sobreviveram até aos nossos dias. Nas últimas décadas a Arqueologia tem resgatado milhares de artefactos que nos fascinam e que nos proporcionam uma visão mais completa (e mais colorida) do que foi a génese da civilização chinesa.
OBJECTIVOS | O curso destina-se, assim, a dar a conhecer os aspectos materiais da civilização chinesa desde as suas origens remotas até ao final da dinastia Han, no século III A.D. Obedecendo a uma sequência cronológica, o curso procurará mostrar a evolução da produção artística na China nas suas várias manifestações, em articulação com a história da formação do Império Chinês.
PROFESSOR | Prof. Doutor João Paulo de Oliveira e Costa
DESTINATÁRIOS | Estudantes, profissionais de instituições culturais, público em geral.
INSCRIÇÕES | No Museu do Centro Científico e Cultural de Macau e no Centro de História de Além-Mar da Universidade Nova de Lisboa, a partir de 23 de Março de 2005
HORÁRIO | De 13 de Abril a 1 de Junho, 4.ªs feiras, às 18h00, no Museu do Centro Científico e Cultural de Macau
CUSTO DE INSCRIÇÃO | € 150,00 / Estudantes € 75,00
CERTIFICADO | Certificado de frequência emitido no final do curso pelo Centro Científico e Cultural de Macau PROGRAMA | 8 sessões A China e a Eurásia. O Neolítico 13 de Abril, 4.ª feira, 18h00 A Dinastia Shang 20 de Abril, 4.ª feira, 18h00 A Dinastia Zhou 27 de Abril, 4.ª feira, 18h00 Os Reinos Exteriores 4 de Maio, 4.ª feira, 18h00 A Época dos Reinos Combatentes 11 de Maio, 4.ª feira, 18h00 O Primeiro Imperador 18 de Maio, 4.ª feira, 18h00 Os Han Ocidentais 25 de Maio, 4.ª feira, 18h00 A Estrada da Seda 1 de Junho, 4.ª feira, 18h00
INFORMAÇÕES | Museu do Centro Científico e Cultural de Macau Rua da Junqueira n.º 30, 1300-343 Lisboa Tel. 21 361 75 70 | Fax 21 361 75 98 www.cccm.pt | geral@cccm.pt Centro de História de Além-Mar – Universidade Nova de Lisboa Av. de Berna, 26 C, 1069-061 Lisboa Tel. 21 7972151 | Fax 217977759 http://cham.fcsh.unl.pt | cham@fcsh.unl.pt