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Dez 04

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S. Miguel Arcanjo, pintura sobre madeira de Andrei
Rubliov, s. XV, Galeria Tretyakov, Moscovo


Conforme ficou evidente pelas duas crónicas anteriores, Moscovo tende, na sua grandeza e no seu totalitarismo arquitectónico, a provocar reacções de revolta e confusão. Três meses de distância ainda não me apaziguaram verdadeiramente. Por outro lado, é também verdade que essa máquina urbana é habitada por 10 milhões de pessoas, e que entre tanta gente é quase impossível que não se encontre algo de mais positivo, de mais idílico, de mais afável e humano. O problema é que, pelo menos inicialmente, não é nada fácil encontrar essa faceta boa da cidade. Desde já, o estrangeiro ocidental não é, em geral, visto com muita simpatia. Eu pelo menos vi-me rapidamente obrigado a enfiar a carapuça. As confrontações estúpidas e desnecessárias começavam logo de manhã no bar da “residencial” em que estávamos albergados, uma ex-residência universitária de 20 e tal andares a ser gerida em regime de “aproveita e foge com o dinheiro”, tão característico do mundo pós-comunista. Todas as manhãs, as empregadas do bar voltavam a fazer a mesma cara de desprezo e desentendimento face a qualquer tentativa de pedido de pão, manteiga, doce e chá, deixando-nos depois esperar vinte, trinta minutos até trazerem um bule de água suja e umas bolachas ridículas, piores que em qualquer estação de serviço espanhola. Os clientes russos, esses, eram servidos com alguma normalidade. Para nós, por contraste, a mensagem veiculada era clara e simples: elas não estavam aí para fazer fretes, ainda por cima para gente que vinha de países onde tudo são facilidades. Segundo, também na rua, e nomeadamente nos transportes públicos, a minha presença foi muitas vezes objecto de irritação. Por exemplo numa manhã em que apanhei o trólei e me sentei, sem saber, no lugar da revisora. O que se seguiu, os gritos, os gestos, o desprezo nas caras imóveis dos restantes passageiros, é bem capaz de ter sido o pior bafo de hostilidade que já enfrentei em toda a minha vida. Ainda hoje me arrepio com essa memória, a despeito de todas as tentativas de racionalização. Suponho que, talvez, essa antipatia – que naquele momento se transformou em catarse colectiva de todo um trólei – resulte de um conjunto de terríveis frustrações. Com o império perdido (mas o sonho imperial bem vivo, com Putin na sucessão de Lenine), o capitalismo triunfante, as tremendas dificuldades da vida quotidiana. Alguém que vem fazer turismo nos transportes públicos da capital russa é difícil de suportar para muitos moscovitas. Durante quatro décadas, os filhos recrutas desses homens e mulheres faziam o que queriam nos países da Europa de Leste. Agora, vêm para Moscovo uns rapazolas “amerikankys” e semelhantes, são corteses e sorridentes, o que vem a ser isto?! E tum. Mas o “topos” da carapaça dura que esconde um coração de manteiga não deixa também de se verificar – ainda que não desde o primeiro momento. Foi preciso procurá-lo. Durante toda aquela semana, não parei de pensar: mas onde estará aquela bela “alma do povo russo” de que a minha mãe e o meu irmão sempre me falaram? Alma sofredora, mas generosa, magoada, mas benevolente? A imagem que eu tinha na cabeça era a de Jeanna, amiga arménia e moscovita do meu tio László, inteligente, sensível e decidida, trazida para o foro da nossa família nos dourados anos 60, no âmbito do turismo organizado que então começou a florescer entre os países socialistas. Onde estava essa gente? Seria possível que ela tivesse sido aniquilada no frio social do pós-comunismo, depois de aguentar aquelas décadas todas de estupidez e terror? Com efeito, o choque migratório do século XX ameaçou em Moscovo submerger os aspectos mais simpáticos e menos totalitários da velha cidade oitocentista: os seus passeios públicos, os seus salões, as suas pastelarias finas, os seus museus de arte, as suas residências de poetas e romancistas... Depois, os anos que se seguiram à (aparente) mudança de regime varreram muito do que ainda tinha conseguido sobreviver, aplicando a tudo e todos a lógica do proveito imediato, da lei do mais forte. Hoje, é esta a tónica que domina muito da paisagem urbana. Néons publicitários a tapar as mais belas e degradadas fachadas românticas, casinos e bares de alterne abertos todo o dia, MacDonald’s e lojas do mesmo género a cada esquina no centro; e tudo isso em versões mais piegas, mais rascas nas restantes zonas. À saída de cada estação de metro aglomerações assustadoras de boticas que vendem álcool em todas as cores e feitios, e os inevitáveis batalhões de gente bêbeda e acabada. Os momentos de verdadeira simpatia acabaram por ser mesmo muito poucos, mas foram tanto mais memoráveis. Recordo-me, mais que tudo, de uma manhã passada no antigo mosteiro de Novodevichy, que ficou preservado na orla da cidade antiga. Estava um dia radiante com aquele céu azul que mesmo nos filmes soviéticos antigos parece ter cor. Perante esse azul, as cúpulas douradas das igrejas e capelas resplandeciam orgulhosas e as folhas prateadas das bétulas dançavam ao vento fresco e perfumado que poderia ser de uma manhã de primavera (os verões na Rússia podem ser quentes, mas a partir de meados de Agosto as paisagens lacustres e os bosques que cercam Moscovo lançam a sua frescura para dentro da cidade). Ao sentar-me num canto abandonado pelos turistas, numa relva densa e impecável, encostado ao tronco de uma bétula e olhando o alegre amontoado de torres e cúpulas das várias igrejas renascentistas e barrocas à minha volta, senti surgir em mim o canto das “Vésperas” de Rachmaninov. Podia não passar de uma lamechice, mas acabou por ser um momento mágico. Nos caminhos sinuosos que ligam as igrejas e as casas, passando por pedaços de relva semeados de túmulos de pessoas famosas, caminhavam gatos, padres ortodoxos, freiras e turistas russos com uma reverência calma e majestosa. Quando os grupos italianos e alemães se desvaneciam, frenéticos e barulhentos, pelo enorme portão de entrada, o recinto parecia mergulhar na sua própria História. Sem polícias secretas, sem torturas e outros terrores, só pela beleza dum cântico ortodoxo, duns versos gravados no túmulo de um poeta, do doce e algo trôpego murmúrio russo de um guia turístico rodeado de reformados prestes a desembolsar o seu farnel, o qual iriam comer sentados à minha volta. Não sei se estas memórias me redimem das outras, tão duras e desconcertantes. Mas quando penso em Moscovo agora, prefiro pensar num povo que adora gelados com sabor a frutos silvestres do que numa cambada de gente conservada em álcool. Prefiro a sombra da bétula à sombra do trólei, a tarte de creme de amoras comida nas resplandecentes arcadas classicistas dos armazéns GUM e as deliciosas batatas assadas das roulotes nas saídas suburbanas do metro aos biscoitos da minha residencial; a classe e a simpatia dalgumas e dalguns colegas orientalistas moscovitas à pieguice das falsas bailadeiras da universidade privada; o deslumbre dos ícones de Andrei Rubljov ao lixo patrioteiro das televisões estatais; a simpatia dos restaurantes “Mu-mu”, que têm por tema a vida campestre e são o principal paradeiro dos estudantes nas horas vagas, ao horror dos palácios soviéticos com os seus mármores e os seus apparatchiks; o sorriso das crianças a brincar à volta do “Grande Fontanário das Nações” à arrogância dos maffiosos que aterrorizam os “Prospekts” com os seus carrões e que são os principais interlocutores do “Ocidente” naquele país. Por isso, se tivesse de resumir numa palavra Moscovo, escolhia, fechando ambos os olhos e pondo de lado com muita força as recordações mais amargas, “amoras”: um frutinho típico dos bosques à volta de Moscovo, objecto de muito carinho (com famílias inteiras a procurá-lo aos fins-de-semana, como nós fazíamos quando éramos pequenos, e ainda fazemos na Hungria e na Alemanha) e saber-fazer (são mesmo poucas as coisas mais deliciosas que uma tarte de creme de amoras com natas frescas). Fechando os olhos, as amoras recordam-me outros frutos silvestres que acompanham as frugais refeições tradicionais russas (a sopa de beterravas, os peixes em vinagre, o pão pesado e escuro) e nos fazem lembrar como aquele país se estende, por infinitos bosques, lagos, serras e tundras, desde o Báltico até aos últimos confins da Ásia, sendo, mais que “Oriente”, um “Norte” extensíssimo, uma faixa de terra que, além de lançar, de tempos em tempos, o terror sobre os seus vizinhos, também os protege (nos protege) do frio polar que absorve por nós. Enquanto andei por Moscovo, tive quase a certeza de que nunca lá iria voltar. Agora já não sei. Penso que é bom passarmos por Moscovo antes de defendermos com demasiada cegueira alguns dos nossos sonhos, mas também antes de mandarmos para o cemitério das ideias alguns outros. Que cada um escolha por si, eu arrumei algumas coisas depois de deixar-mas desarrumar.


 


Zoltán Biedermann

publicado por Francisco Caramelo às 21:20

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