10
Abr 04

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Em 1867, Mark Twain fez uma viagem à Europa e à Palestina, financiado por um periódico americano, o Daily Alta California. Durante a viagem, escreveu uma série de cartas que são verdadeiras crónicas do que foi vendo e conhecendo. Numa dessas cartas, datada de Setembro de 1867, Mark Twain descreveu a Palestina, tendo presentes os relatos bíblicos sobre a conquista de Canaã.




«It almost warrants the unbiblical enthusiasm of the spies of that rabble of filibusters who captured Dan. They said: "We have seen the land, and behold it is very good....A place where there is no want of anything that is in the earth."  


Well, I suppose they were pardonable. They hadn't seen any country but Palestine, and surely this was very good for Palestine. They thought that little patch was plenty for their six hundred men and their families. They do say that in the good old Bible times Palestine had a population of six million souls--Palestine, the promised land, a small strip of rocks and deserts and mountains, not equal in [area] to the State of Massachusetts, (which one cannot always see on the map of the United States without shutting one eye, Mrs. A.J.M.)--Palestine, where every hundred acres of arable land is protected by three mountains on each side and a desert at each end to keep it from bolting for want of company. I supppose Dutch Flat struck the filibustering spies as something extraordinary in the way of wide-extended fertility. At the same time, though, they drew it just a little strong when they said it was "a place where there is no want of anything that is in the earth." That was a little strong. A good deal of the north end of the farm had the boulders of original creation bedded in the soil as thick as nail-heads in a hair trunk, and they are there yet. Other portions of the farm lacked many things that are in the earth, and likewise lacked the capacity to produce those things. Still, it was a good piece of country for Palestine


Daily Alta California, 5 de Janeiro de 1868 [http://etext.lib.virginia.edu/railton/innocent/alta34.html]


 

publicado por Francisco Caramelo às 23:52

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No Canto IV dos Lusíadas, Camões canta e louva a inquietação de D. João II, que envia dois exploradores, Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, ao encontro das terras do Oriente.


 


«Polo mar alto Sículo navegam;
Vão-se às praias de Rodes arenosas;
E dali às ribeiras altas chegam
Que com morte de Magno são famosas;
Vão a Mênfis, e às terras que se regam
Das enchentes Nilóticas undosas;
Sobem à Etiópia, sobre Egipto,
Que de Cristo lá guarda o santo rito.


 


«Passam também as ondas Eritreias,
Que o povo de Israel sem nau passou;
Ficam-lhe atrás as serras Nabateias,
Que o filho de Ismael co nome ornou.
As costas odoríferas Sabeias,
Que a mãe do belo Adónis tanto honrou,
Cercam, com toda a Arábia descoberta,
Feliz, deixando a Pétrea e a Deserta.


 


«Entram no Estreito Pérsico, onde dura
Da confusa Babel inda a memória;
Ali co Tigre o Eufrates se mistura,
Que as fontes onde nascem têm por glória.
Dali vão em demanda da água pura
(Que causa inda será de larga história)
Do Indo, pelas ondas do Oceano,
Onde não se atreveu passar Trajano.


 


«Viram gentes incógnitas e estranhas
Da Índia, da Carmânia e Gedrosia,
Vendo vários costumes, várias manhas,
Que cada região produze e cria.
Mas de vias tão ásperas, tamanhas,
Tornar-se facilmente não podia.
Lá morreram, enfim, e lá ficaram,
Que à desejada pátria não tornaram.
»

publicado por Francisco Caramelo às 01:57

09
Abr 04

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Wolfgang, o jovem aprendiz de arqueólogo, trabalhava pela primeira vez no Egipto, realizando o sonho tantas vezes sonhado. Naquela manhã, começara, como era hábito, o dia muito cedo, acompanhado pelos guftis, oriundos do Alto Egipto, e que, havia gerações, tinham aprendido o ofício com Sir Flinders Petrie. Era meio-dia e o sol fazia-se sentir, intenso, escaldante. Na base do tell, os guftis pareciam saber com exactidão o que era preciso fazer. As crianças da aldeia vizinha arremedavam os forasteiros e desafiavam-nos. Ao longe, pela vereda que, sinuosa, conduzia à aldeia, vislumbrava-se um egípcio rotundo, montado num jumento, também ele atormentado pela canícula.


Bruscamente, sem aviso, o ar ficou mais carregado e o céu tornou-se alaranjado. De início uma escassa brisa, que se transfigurou rapidamente num vento forte e seco. Ahmed, o gufti mais velho, de tez enegrecida e com a pele vincada pelo tempo, sentenciou, fixando a sua expressão altiva e vivida nos olhos de Wolfgang: hamsin! É o hamsin!


Tempestade de areia, vento cortante, o hamsin obscureceu gradualmente a luz do sol. A areia, transportada pelo vento, fustigou as faces dos homens, agachados, procurando refúgio onde podiam. Os olhos semi-cerrados de Wolfgang aperceberam-se da chegada de Hassan, o egípcio rotundo que desmontou com dificuldade o pobre asno.


O hamsin ficara-lhe na memória como uma metáfora. Um vento forte, perturbador e traiçoeiro, a que ele resistira com dificuldade. Outras vezes se haveria de lembrar do hamsin, apesar de não ter voltado mais ao Egipto. Ficara-lhe como uma lição de vida, uma imagem das tempestades que, mais tarde ou mais cedo, se enfrentam. Quantas vezes, quando atormentado por uma qualquer contrariedade, não murmura para si mesmo: é o hamsim! É o hamsin!   


Memórias, Otto Ernst.


 

publicado por Francisco Caramelo às 02:17

08
Abr 04

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Álvaro de Campos, uma vez mais. O heterónimo de Fernando Pessoa reflecte nesta ode a geografia simbólica da civilização no seu tempo e, em particular, as representações estereotipadas de Oriente. O Oriente como o berço da civilização, o Oriente exuberante e faustoso, o Oriente espiritual, o Oriente como a origem do Ocidente… Joga com uma sucessão de antinomias implícitas que opõem Ocidente ao Oriente e que aprofundam a ideia do Outro e de uma alteridade que é também estruturante do conceito e da consciência que temos de nós próprios.  


   «(…) Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido, 
   Folha a folha lê em mim não sei que sina 
   E desfolha-me para teu agrado, 
   Para teu agrado silencioso e fresco. 
   Uma folha de mim lança para o Norte,  
   Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;  
   Outra folha de mim lança para o Sul,  
   Onde estão os mares que os Navegadores abriram;  
   Outra folha minha atira ao Ocidente,  
   Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,  
   Que eu sem conhecer adoro;  
   E a outra, as outras, o resto de mim 
   Atira ao Oriente,  
   Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,  
   Ao Oriente pomposo e fanático e quente,  
   Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,  
   Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta, 
   Ao Oriente que tudo o que nós não temos, 
   Que tudo o que nós não somos, 
   Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,  
   Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo... (…)»


   «Dois Excertos de Odes», Álvaro de Campos


  

publicado por Francisco Caramelo às 15:32

«(...) tanto como o Ocidente, o Oriente é uma ideia que tem uma história e uma tradição de pensamento, de imagens, e um vocabulário que lhe deram uma realidade e uma presença no e para o Ocidente. As duas entidades geográficas, pois, apoiam-se, e até certo ponto reflectem-se uma na outra».


 Edward Said, Orientalismo, p.5

publicado por Francisco Caramelo às 00:23

07
Abr 04
Palestina.jpg Eça de Queirós visita o Egipto, a Palestina, a Síria e o Líbano, acompanhado pelo conde de Resende, nos finais de 1869 e inícios de 1870. Essa curta peregrinação irá marcar a sua escrita, designadamente em obras como A Relíquia. O Oriente exercia, nos finais do século XIX, um fascínio indisfarçável sobre a cultura europeia, desde a erudição orientalística até à produção operática e à literatura.
Neste trecho de A Relíquia, é interessante verificar-se a aparente equidistância e visível reverência com que se refere a Buda, a Maomé e a Jesus Cristo. Outra observação cultural, que provavelmente reflecte o espírito da época, bem como a visão europeia sobre o Oriente, é a sugestiva perplexidade com que descreve o cenário contrastante e decepcionante em que Jesus Cristo teria vivido.

«Nunca me foi dado percorrer os Lugares Santos da India em que o Budha viveu – arvoredos de Migadaia, outeiros de Veluvana, ou esse dôce valle de Rajagria por onde se alongavam os olhos adoraveis do Mestre perfeito quando um fogo rebentou nos juncaes, e Elle ensinou, em singela parabola, como a Ignorancia é uma fogueira que devora o homem – alimentada pelas enganosas sensações de Vida que os sentidos recebem das enganosas apparencias do Mundo. Tambem não visitei a caverna d’Hira, nem os devotos areaes entre Meca e Medina que tantas vezes trilhou Mahomet, o Propheta Excellente, lento e pensativo sobre o seu dromedario. Mas, desde as figueiras de Bethania até ás aguas caladas de Galilêa, conheço bem os sitios onde habitou esse outro Intermediario divino, cheio de enternecimento e de sonhos, a quem chamamos Jesus-Nosso-Senhor: - e só n’elles achei bruteza, seccura, sordidez, soledade e entulho.
Jerusalem é uma villa turca, com viellas andrajosas, acaçapada entre muralhas côr de lôdo, e fedendo ao sol sob o badalar de sinos tristes.
O Jordão, fio d’agua barrento e pêco que se arrasta entre areaes, nem póde ser comparado a esse claro e suave Lima que lá baixo, ao fundo do Mosteiro, banha as raizes dos meus amieiros: e todavia vede! Estas meigas aguas portuguezas não correram jámais entre os joelhos d’um Messias, nem jámais as roçaram as azas dos anjos, armados e rutilantes, trazendo do céo á terra as ameaças do Altissimo!»

(Eça de Queirós, A Relíquia; Biblioteca Nacional Digital: http://purl.pt/7/)
publicado por Francisco Caramelo às 00:56

05
Abr 04
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«Dos Lloyd Georges da Babilónia
Não reza a história nada.
Dos Briands da Assíria ou do Egipto,
Dos Trotzkys de qualquer colónia
Grega ou romana já passada,
O nome é morto, inda que escrito.

Só o parvo dum poeta, ou um louco
Que fazia filosofia,
Ou um geómetra maduro,
Sobrevive a esse tanto pouco
Que está lá para trás no escuro
E nem a história já historia.

Ó grandes homens do Momento!
Ó grandes glórias a ferver!
De quem a obscuridade foge!
Aproveitem sem pensamento!
Tratem da fama e do comer,
Que amanhã é dos loucos de hoje!»

Álvaro de Campos, «Gazetilha» (1928 ou 1929)


publicado por Francisco Caramelo às 18:43

04
Abr 04
Estou a ler o livro de Edward Said, Orientalismo, agora traduzido em português. Trata-se de uma leitura estimulante e que nos faz reflectir sobre os conceitos de Oriente e de Orientalismo. O autor problematiza, logo nas páginas iniciais (no prefácio de 2003 e na introdução), as várias representações de Oriente na Europa e no Ocidente, designadamente numa perspectiva diacrónica. É importante reflectir-se sobre esta questão. Poderemos falar no Oriente como uma unidade, que se distingue ontológica e culturalmente do Ocidente, mas que, além disso, contenha uma coerência e uma unidade intrínsecas? Esta era claramente a convicção do pensamento no século XIX, que se materializou no nascimento do Orientalismo como disciplina académica. Said afirma, a certa altura, que «O Oriente não é apenas um lugar adjacente à Europa; é também a região onde se encontram as maiores, mais ricas e antigas colónias europeias, é a fonte das civilizações e línguas europeias, o adversário cultural e uma das imagens mais profundas e recorrentes do Outro. Por outro lado, o Oriente ajudou a definir a Europa (ou o Ocidente) como contraposição à sua imagem, como ideia, personalidade e experiência contrárias à sua. O Oriente é uma parte integrante da civilização e cultura materiais da Europa.» (pp.1-2)
Isto parece-me claro. Para o Ocidente, o Oriente é o que não é ocidental. É a experiência, a representação e o discurso da alteridade. Dessa experiência e da aproximação ao Outro resultam naturalmente a sua própria transformação e reinvenção. Todavia, outra questão é a da unidade ontológica e cultural que o Oriente poderá ou não conter. O que aproxima o Islão à China ou ao Japão? Aceitando a diversidade oriental, o mosaico de Orientes, a unidade do Oriente estará pois na alteridade que representa relativamente ao Ocidente.
publicado por Francisco Caramelo às 21:57

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