30
Mai 04
Sol.jpg
publicado por Francisco Caramelo às 21:31

29
Mai 04

Crónica da viagem de Zoltán Biedermann. 


O Oriente às vezes é um desespero, mas
no Oriente o desespero é às vezes um prazer.

Já que a narrativa da minha viagem está baralhada,
permito-me um interlúdio saído das experiências feitas
ontem e hoje em Teerão. O escopo era (e é) reunir umas
trinta reproduções de mapas antigos que se encontram na
cave de uma instituição auto-intitulada Centro de
Pesquisa e Documentação, vagamente ligada ao
Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão. Nada de
mais fácil, garantia-me o nosso coordenador local,
Mahmoud Taleghani, também conhecido entre nós, outros
participantes no colóquio, como Napoleão, dada a sua
estatura e os seus ares de ditador. Um tipo bem
porreiro, diga-se, que depois de viver quinze anos em
Paris, resolveu voltar ao seu país - sob a única
condição de, enquanto sociólogo, entregar todos os
seus dados primeiro aos mollahs.
Taleghani, dizia eu, o qual se conta entre os
reformadores de cá, prometeu-me que tudo se resolveria
num ápice, desde que ele falasse com o director do
Centro, seu amigo e correligionário liberal. Lá fomos
nós para a cave a fim de ver mapas e fazer a nossa
selecção - nós: eu e o Ali Goli, um tipo impecável
cujo vocabulário inglês é constituído de uma vintena
de palavras, entre as quais a mais usada é
"otherthings".

Feita a selecção, o dia de hoje esteve preenchido com a
questão da reprodução. Os dados a ter em conta eram:
1) há um scan alemão que já foi topo de gama, mas que
o foi numa altura em que não se faziam scans a cores.
2) os mapas estão encaixilhados de forma definitiva e
irreversível, com o que a fotografia se torna quase
inviável devido aos reflexos da luz. 3) o chefe da
cave está muito zangado connosco porque acha que
andamos a roubar os seus mapas; e 4) existe no Centro
uma máquina fotográfica digital e o homem dos scans
está disposto a tentar a sua sorte com ela.

A coisa passou-se da maneira seguinte.

8h30-9h45 - aquecimento geral e início da discussão
9h45 - primeira tentativa de scan a preto e branco
10h-10h30 - primeiros testes com a câmara digital. Tudo
parece correr bem. Tragicamente, o mau olhado de algum
funcionário anti-ocidental atinge o gabinete. A
máquina digital sofre uma morte súbita, a qual, como
quase todas as mortes, se me afigura definitiva. Os
iranianos não perderão a esperança até ao fim do dia
mas, como já se prevê, em vão.
10h30 - O conselho geral decide enviar um velhote que
anda a limpar os vidros para ir comprar umas pilhas
novas a meter na máquina digital.
Pausa de chá. Reparo que num canto da sala o
screensaver de um computador está a passar imagens
idílicas da América profunda: partidas de golfe e de
pesca no Nebraska, pássaros de Yellowstone, uma
companhia da USAF a embarcar para a guerra (título da
imagem "All aboard!"), mais peixinhos e mais pássaros.
Não estou a delirar. Ou ninguém reparou ainda, ou eles
estão-se mesmo nas tintas para toda esta cena dos
inimigos mortais.
11h30 - Enquanto nos debruçamos sobre a máquina
desastrada, o homem das pilhas chega, desesperado como
um herói de cinema neo-realista (o homem da bicicleta,
claro), explicando como se estivesse num tribunal
militar que não conseguiu encontrar nada. A fim de
evitar a sua execução sumária, promete voltar a
encetar outro périplo noutra direcção. Presume-se que
esteja neste momento a tentar passar a fronteira do
Azerbeijão.
12h - Napoleão e eu decidimos avançar com os scans a
preto e branco. Sempre serão um instrumento de
trabalho útil.
Paralelamente, Napoleão contacta os seus amigos de um
outro instituto ministerial. A câmara digital desse
instituto chega por volta das 12h30, mas é tão
sofisticada que ninguém lhe consegue mexer. Aliás, o
cartão de memória da máquina está cheio de fotos de
jardins e otherthings de fim-de-semana, aparentemente
ali esquecidas por algum alto funcionário. O embaraço
só se dissolve após o visionamento integral da
colecção.
13h-14h  - Almoço com o chefe da subsecção, pequeno
apparatchik parecido com o Roberto Benigni, mas muito
pouco engraçado. Discutimos a injustificável
independência de Timor. A nossa fuga para a sala dos
scans resulta apenas à terceira tentativa.
14h-15h - Feitos os scans, recomeça o drama do digital.
Os vidros reflectem a luz, o funcionário não consegue
focar a imagem, uma pilha de mapas rui subitamente
deixando-nos por momentos com o pavor do grande
terramoto – etc. otherthings, mais uma vez. Resolvo
tirar uma dúzia de slides com a minha máquina. Ficamos
todos muito felizes. Trocamos elogios barrocos com o
funcionário num duelo que ameaça não querer terminar.
O prazer foi todo meu, não, meu, não, meu. Quando
termina, chega outro copinho de chá. Às 16h30, a casa
fecha e somos libertados.

Corro, de táxi e metro (carruagens separadas para
homens e mulheres, pelo que nas estações anda tudo aos
encontrões a correr de um lado para o outro) para
conseguir entrada no Museu Nacional e constatar que,
de facto, quase tudo o que tinha e não tinha interesse
está hoje em Paris, Londres e Berlim.

Tudo menos eu, claro, que ainda calcorreio as avenidas
de Teerão por mais umas horas, bebendo batidos e
comendo kebabs. O Oriente às vezes é um desespero, mas
no Oriente o desespero é às vezes um prazer.


Zoltán Biedermann
 

publicado por Francisco Caramelo às 22:57

28
Mai 04

 


“An intriguing problem which has presented itself during the work has been the deciphering of a number of different secret codes in which several of the works were written. Happily they are nothing more complicated than new alphabets, which were composed by the sectarians to keep certain works especially secret, and in one case they contrive to write most, but not all, of the words backwards, and use a mixture of four or five alphabets, including one or two of their own invention.” 


 


John Allegro The Dead Sea Scrolls


A edição dos textos

publicado por Francisco Caramelo às 19:19

27
Mai 04
 

Camilo Pessanha nasceu em Coimbra, em 1867. Datam de 1885 os seus primeiros poemas conhecidos. Em 1894, parte para Macau para ensinar Filosofia no Liceu, tendo oportunidade de conhecer e de conviver com Wenceslau de Moraes. Em 1920, é publicada a sua obra mais conhecida, a Clepsydra. Morreu em 1926.


Relativamente à poesia de Camilo Pessanha, levanta-se uma questão interessante que é a de saber até que ponto a poesia chinesa terá influenciado a sua escrita. A este propósito, Esther de Lemos (A «Clépsidra» de Camilo Pessanha, p.170) afirma que a poesia chinesa terá reforçado «nele uma tendência para certa desarticulação sintáctica, uma coordenação assindética, a utilização de frases elípticas, ambiguidade provocada pela colocação das palavras e ambiguidade na morfologia destas». Por outro lado, José Augusto Seabra refere que «A minúcia do trabalho poético da língua – do fonema à sílaba, ao morfema, ao lexema, ao sintagma – muito deve entretanto, em Camilo Pessanha, à sua incorporação da experiência da tradução da poesia chinesa» (José Augusto Seabra, «Macau, o Oriente e a poesia portuguesa», p.64).



Citações extraídas de Manuela Delgado Leão Ramos, António Feijó e Camilo Pessanha no panorama do Orientalismo português, Lisboa, Fundação Oriente, 2001.



Trecho do poema de Camilo Pessanha, intitulado «Branco e vermelho»



«(…) A cada golpe tremem


Os que de medo tremem,


E as pálpebras me tremem


Quando o açoite vibra.


Estala! e apenas gemem,


Palidamente gemem,


A cada golpe gemem,


Que os desequilibra. Sob o açoite caem,


A cada golpe caem,


Erguem-se logo. Caem,


Soergue-os o terror...


Até que enfim desmaiem,


Por uma vez desmaiem!


Ei-los que enfim se esvaem,


Vencida, enfim, a dor.


E ali fiquem serenos, de costas e serenos.


Beije-os a luz, serenos,


Nas amplas frontes calmas.


Ó ceus claros e amenos,


Doces jardins amenos,


Onde se sofre menos,


Onde dormem as almas! (...)».


 

publicado por Francisco Caramelo às 10:41

25
Mai 04

“He was a lean dark-skinned Arab of the desert (...) and Saad studied his face for a moment, noticing is long, straight, Semitic nose, his short curly beard, and black smouldering eyes. He was a true son of the desert from the sandy wastes of the Hijaz, trained from his boyhood in the desert lore and with eyes as keen as an eagle’s. They would be able to perceive from an amazing distance any disturbance of the ground round the illicit excavations, and so detect the cave perhaps even from ground level.”


John Allegro The Dead Sea Scrolls


O procurar de quem pudesse auxiliar na busca pela gruta onde se encontraram os primeiros manuscritos

publicado por Francisco Caramelo às 00:21

22
Mai 04

O que é difícil, finalmente, não é encontrar um Mestre, é tornar-se um discípulo.


Mokuriu Entai - Monje Zen


Provérbio recolhido e enviado para o 1001-Orientes por David Aboim

publicado por Francisco Caramelo às 09:48

21
Mai 04

 


Mais uma crónica da viagem de Zoltán Biedermann ao Irão.


Findo o colóquio internacional de cartografia histórica do Golfo Pérsico, que reuniu uns poucos especialistas ocidentais com uns tantos e insuportáveis caga-palavras locais, dirigimo-nos ao impecável aeroporto doméstico de Teerão e fomos até Isfaão. Azadi! (libertação!) Para trás ficavam discussões fogosas sobre a necessidade de extirpar a designação, ainda corrente em certos países vizinhos, do Golfo como sendo árabe (e não persa), sobre a arrogância com que nós, europeus, vínhamos falar dos nossos mapas renegando a cartografia islâmica para segundo plano (na verdade fomos contactados pela Universidade de Teerão precisamente para trabalhar sobre mapas ocidentais, porque dos outros pouco ou nada se sabe), etc. etc. Sair desse buraco foi, em suma, um alívio monumental. No saldo positivo ficava o que de costume se designa por... E tudo o que já descrevi. Venham então os contos de fadas, os verdadeiros. Isfaão, ocre e cheiro-de-coriandro, e atravessada por um rio que, por esta época do ano, ainda gurgita águas frescas descendo as encostas dos Montes Zagros. Essas águas trazem frescura e uma brisa que se mete pelas arcadas de três maravilhosas pontes do século XVII. Por entre as arcadas, festivamente iluminadas durante a noite, milhares de jovens e de famílias passeiam e vagueiam, sentando-se ocasionalmente em casas de chá cheias de magia para fumar o narguile, ou simplesmente à beira da água, conversando, rindo e gozando imenso com os raros estrangeiros que a essa hora da noite ainda ousam fugir dos seus hotéis e meter-se no meio da confusão. Há uns poucos sítios assim no mundo, desde os canais de Leiden até à Ribeira do Porto, mas aqui no Irão, confesso, não estava à espera de encontrar nenhum. Para mais com tanta categoria, tanto estilo e tanta descontracção! Para além das passeatas nocturnas à beira-rio, Isfaão é também um lugar capital da história persa. Foi aqui que, umas décadas antes de Luis XIV, Shah Abbas criou um centro de poder cuja principal mensagem arquitectónica era a da grandeza absoluta. No centro da cidade, uma praça imensa acolhe o visitante entre arcadas infindáveis e as fachadas de três mamarrachos verdadeiramente magníficos (duas mesquitas cobertas de azulejos coloridos e um delicioso palácio avarandado com vista para as montanhas em redor). 400 anos antes de nós, uns corajosos agostinhos portugueses andaram por esta corte, fazendo sabe-se lá precisamente o quê. Os nossos palpites iam, naturalmente, para noitadas magníficas (não encontro outra palavra melhor) cheias de volpúcias doces e refinadas, largamente devedoras da tolerância com que por então ainda eram consumidos os excelentes vinhos de Shiraz (aqueles mesmos que hoje nos chegam da Austrália). Os agostinhos entretanto foram-se embora, e os vinhos também. Ficaram as mulheres, embrulhadas em sacos de batata negros que a maioria espera poder em breve queimar, e os azulejos. Azulejos cobrindo as paredes dos pátios das mesquitas, azulejos reflectindo águas e águas reflectindo azulejos, azulejos adornando cúpulas reminiscentes do Panteão e ainda azulejos de todas as cores acolhendo o visitante em gigantescos arcos de entrada, do estilo de Samarcanda, mas, segundo nos explicam cá, muito maiores. Um sonho verdadeiro! Ficar ali, vagueando por entre mil maravilhas da arte islâmica, que bom poderia ser. E que pena que, ao entregar-nos as chaves dos nossos quartos, o dono do hotel, um irano-americano com sotaque da Califórnia, me tivesse apenas podido dizer: I wanna get out of here... I don’t like this... Come on... É assim o mundo, nada é perfeito, ainda que às vezes se pense que poderia ser.


Zoltán Biedermann

publicado por Francisco Caramelo às 19:31

“The party arrived on the day appointed and took their seats. Everybody asked after everybody else’s health, and were asked in return, and Allah duly thanked. Coffee was passed round, and, after that, the customary small talk ensued, without which no Arab meeting is considered opened. At last, after the seventh round of thanking Allah for their individual good health, the main subject was broached and the terms stated.”


Jonh Allegro The Dead Sea Scrolls


Sobre o processo de aquisição de alguns dos manuscritos

publicado por Francisco Caramelo às 19:30

18
Mai 04

A dor faz pensar o Homem,


O pensamento torna o Homem sábio,


A sabedoria torna a vida aceitável.


(Provérbio de Okinawa recolhido e enviado para o 1001-Orientes por David Aboim)

publicado por Francisco Caramelo às 23:58

17
Mai 04

Uma promessa é uma nuvem; cumpri-la é a chuva.


Provérbio árabe

publicado por Francisco Caramelo às 23:37

Maio 2004
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