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Mai 05

Compreende-se que lá para o ano três mil e tal


ninguém se lembre de certo Fernão barbudo


que plantava couves em Oliveira do Hospital,


 


ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores


que tirou um retrato toda vestida de veludo


sentada num canapé junto de um vaso com flores.


 


Compreende-se.


 


E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto


(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)


com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,


e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,


e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,


e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,


que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,


e passavam a vida inteira a fazer guerras,


e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,


e o resto tudo por aí fora,


e a Guerra dos Cem Anos,


e a Invencível Armada, e as campanhas de Napoleão,


e a bomba de hidrogénio,


e os poemas de António Gedeão.


 


Compreende-se.


 


Mais império menos império,


mais faraó menos faraó,


será tudo um vastíssimo cemitério,


cacos, cinzas e pó.


 


Compreende-se.


Lá para o ano três mil e tal.


 


E o nosso sofrimento para que serviu afinal?


 


(António Gedeão)

publicado por Francisco Caramelo às 17:07

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